Diagnósticos em proliferação
- Artur Linck

- 7 de nov. de 2025
- 9 min de leitura
Atualizado: 10 de nov. de 2025
A rede mundial de computadores originalmente tinha a intenção de ser uma grande biblioteca compartilhada e aberta de informação, onde todos pudessem acessar e utilizar para seus estudos, pesquisas, projetos, etc. Algo descentralizado e com uma perspectiva de certa forma libertária no horizonte dos seus idealizadores. Bem, hoje sabemos que isso se deu em partes! Como era de se esperar, o capitalismo avança no terreno digital e hoje o que era pra ser algo descentralizado está cada vez mais se transformando em propriedade privada e na mão de poucos. As plataformas de Inteligência Artificial (IA) estão nesse exato momento de 2025, disputando para ver quais delas sobreviverão, numa área que até então só vive de promessas maravilhosas e prejuízos bilionários ¹. Mas é conhecido que a IA vem ganhando terreno meio que "goela abaixo" e é inserida nas mais diversas ferramentas que possamos imaginar, desde sistemas operacionais de computadores e smartfones, aplicativos de mensagens, redes sociais e outros. Hoje a empresa de tecnologia que não oferece algo nesse sentido é vista como atrasada pelo mercado, o que motiva a presença quase total de algum tipo de IA naquilo que a população usuária tem contato hoje. Embora o quadro atual seja esse, no Brasil muitas pessoas ainda não entendem muito bem o que seja Inteligência Artificial, apesar de utilizarem de diversas formas em seu cotidiano. ²
O acesso que todos temos hoje à internet nos dá ferramentas para pesquisar muitos tipos de assuntos que possamos ter interesse. Até alguns anos atrás, em uma época pré digital, alguns temas eram de difícil acesso e apenas após uma busca muito trabalhosa conseguíamos algumas respostas. Geralmente envolvia uma consulta em algum livro físico em uma biblioteca ou até mesmo nas hoje jurássicas enciclopédias. Há 5 ou 10 anos atrás, já no terreno digital, após uma busca por termos em uma ferramenta de busca como o Google, precisávamos filtrar os resultados, muitas vezes acessar 1 a 1 as fontes que apareciam, ler o seu conteúdo e fazer um resumo de tudo o que interessava. Hoje com a adição da IA Gemini do Google, por exemplo, ela mesmo faz esse resumo e consulta as fontes que são mais relevantes para ela dentro de algum critério que confesso que desconheço. Atualmente o Google como conhecíamos está muito rapidamente virando coisa do "passado", pois os resultados da IA aparecem em primeiro plano com resumo e links das fontes consultadas, mesmo que o usuário não queira. Será que alguém irá se dar o trabalho de ir consultá-las uma a uma ou até mesmo ignorar isso e fazer uma consulta mais "tradicional"? Muitas pessoas já nem usam o Google para realizar suas buscas e já acessam diretamente outras ferramentas como o famoso Chat-GPT ou até mesmo redes sociais.
Trazendo esse contexto digital para as questões que nos interessam, dentro do tópico mais amplo de Digitalização da Vida Cotidiana, hoje vivemos uma ampla proliferação e divulgação diagnóstica em saúde mental. O que antes era de acesso restrito à profissionais ou de mais difícil acesso, (quem de fora da área compraria um Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) só pra ver onde se encaixaria?) hoje está plenamente disponível para todos e com a adição da IA. Podemos inclusive treinar agentes de Inteligencia Artificial para dar respostas diagnósticas ou até mesmo treinar agentes para serem "terapeutas" virtuais, algo que é tópico para outra discussão futura. O ponto importante aqui é: Quais os benefícios do acesso amplo e irrestrito de diagnósticos por pessoas leigas? Há benefícios? Qual a utilidade ou serventia dos diagnóstico para alguém que não é da área clínica? O que os resultados filtrados por IA podem produzir no sentido de estatuto de verdade? O usuário comum terá senso crítico para ler os resultados ou assumirá como verdade, já que foi gerado por uma INTELIGÊNCIA Artificial? Essas perguntas surgem não somente pelo auto diagnóstico feito por uma simples busca de sintomas, mas também da disseminação de posts e vídeos em redes sociais com coisas do tipo:
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Claro que não podemos negar que tudo isso proporciona uma maior conscientização, conhecimento e reconhecimento da população de que o sofrimento psíquico é um tema a ser debatido e relevante. Movimentos de saúde mental no trabalho, por exemplo, onde pululam casos de afastamento por estafa, ansiedade e depressão ³ são avanços importantes nas normas trabalhistas, inclusive com iniciativas como a obrigatoriedade da NR-1 de avaliação dos riscos psicossociais em empresas de todos os portes. Ou seja, não se trata de demonizar totalmente a divulgação dos diagnósticos, mas sim de podermos ter uma criticidade dos efeitos dessa massiva divulgação e por consequência a utilização dos mesmos como etiquetas classificatórias.
Afunilando ainda mais a questão e trazendo para o campo da psicanálise: qual o papel do diagnóstico na clínica? Os critérios são os mesmos da psiquiatria ou da psicologia? Há um livro base como o DSM para os psicanalistas consultarem? Primeiramente vejam como se intitula o DSM: Manual Diagnóstico e ESTATÍSTICO de Transtornos Mentais. O termo estatístico já nos indica que há um componente matemático em jogo, com prevalência de transtornos na população em geral e onde está colocada uma média matemática. São agrupados sintomas ou sinais em grandes categorias chamadas de síndromes e transtornos. Estes são diagnosticados e nomeados como tais quando há presença de um número x de sintomas, com o profissional utilizando-se tanto de uma entrevista de anamnese como de um teste psicológico homologado. Tendo em mãos esses dados o profissional que está cuidando do caso pode então fazer uma análise e poder chegar a um diagnóstico, tanto para fins de laudos psicológicos como para basear o seu fazer clínico com determinado paciente.
Na clínica psicanalítica as coisas são um pouco diferentes e não contamos com um "DSM psicanalítico"4 e muito menos com testes. Desde sua fundação por Freud a psicanálise conta com uma diagnóstica própria, contendo alguns termos importados da psiquiatria, mas que possuem um lógica interna diferente de classificações, normas e estatísticas. A função do diagnóstico psicanalítico é puramente clínico, ou seja, ele serve de base para que possamos pensar o caso que estamos escutando e pensar a direção do tratamento. Essa diagnóstica necessita de um certo tempo e vai sendo tecida aos poucos a partir das entrevistas iniciais e pode ser reavaliada se algum elemento novo surgir. Presença ou ausência de sintomas não indicam um diagnóstico, já que não há uma relação preestabelecida/fixa/direta entre sintoma e estrutura clínica (isso indica que podemos ter sintomas obsessivos em um sujeito histérico ou que possam existir "loucuras" neuróticas e não necessariamente psicóticas, por exemplo).
Um diagnóstico em psicanálise precisa ser pensado a partir do laço transferencial que se estabelece entre analisando e psicanalista. Resumindo e não querendo trazer muitos elementos técnicos aqui, isso quer dizer que o psicanalista irá pensar o diagnóstico levando em consideração como esse paciente irá se dirigir a ele, em que lugar o coloca no laço e o que demanda no tratamento. Além disso, outras questões precisam ser analisadas, a depender da corrente psicanalítica e autores que o analista embasa a sua clínica. A partir da visão do psicanalista francês Jacques Lacan, temos a leitura de um diagnóstico estrutural que gira basicamente em grandes categorias: Neurose, Psicose e Perversão. Essas últimas são pensadas levando em conta outros elementos da teoria como a castração/relação com a falta, o desejo e a posição de cada um perante a linguagem e seu sintoma. Tudo isso é construído e pensado a partir daquilo que é dito pelo analisando em tratamento através da associação livre, um dos dispositivos principais de escuta com que conta o psicanalista. Aqui o sujeito falante fala tudo o que lhe vier à cabeça, como quiser, quando quiser e da forma que achar pertinente. A intenção é que dessa fala se possa extrair uma espécie de texto, muito próprio de cada um, onde os impasses e sofrimentos narrados não caibam num simples manual ou que uma diagnóstica sintomatológica não dê conta de designar o sujeito em questão.
A função do analista é manejar o texto, extrair dele sua lógica, suas coordenadas estruturais. São essas coordenadas que sustentam a hipótese diagnóstica que, por sua vez, serve de guia de leitura, definindo o modo de interpretar a partir do qual o analista dirige o tratamento. (FARIA, 2025, p.136)
As hipóteses diagnósticas não possuem qualquer relação evolutiva ou de valor entre si, ou seja, não é melhor ser neurótico do que psicótico ou perverso ou que uma estrutura estaria mais no campo do "normal". Lembrem-se que o "normal" é apenas a prevalência estatística na população de determinada questão, não de que isso seja o natural ou o mais esperado.
Vejam que todo esse processo não é feito rapidamente olhando uma listagem de sintomas e classificando-os com um nome, muito menos retirados de uma saídade prompt de alguma IA, pois eles não bastam para que se possa tecer uma hipótese diagnóstica. Dificilmente isso é feito em 1 ou 2 sessões ou somente ouvindo meia duzia de queixas. Além disso, deve-se levar em conta que o sofrimento humano é visto de uma forma diferente pela psicanálise, comparado com a psiquiatria ou com algumas linhas da psicologia. Enquanto a psiquiatria usualmente visa poder cessar sintomas, utilizando para isso as opções medicamentosas disponíveis no mercado, o sintoma, por mais sofrimento que possa causar a alguém, possui um lugar fundamental na estrutura do sujeito e isso não implica diretamente sua extinção. Se entende, dessa forma, que um sintoma é uma espécie de resposta construída pelo sujeito para alguma questão sua e essa foi a sua melhor resposta criada até então. Num tratamento esses elementos poderão ser postos em análise, assim como a implicação do analisante no mesmo e lá pelas tantas esse sintoma pode não ser mais tão necessário, já que se criou outras possibilidades de circulação do sujeito pelo campo do desejo. Isso não quer dizer que ele não esteja mais presente na vida do sujeito, mas que talvez não provoque mais tanto sofrimento como antes.
É compreensivo que alguém em sofrimento demande saber o que se passa consigo e com isso em mãos poder definir o que pode ser feito para que se livre o quanto antes desse desconforto. Em alguns casos isso pode viabilizar inclusive benefícios sociais governamentais e por isso precisam ser analisados de forma criteriosa, no caso a caso. Numa análise isso pode ter lugar e ser acolhido, porém como mote para que o sujeito fale cada vez mais de si e desse sofrimento. Dar um nome, de forma apressada e antecipada, pode criar, penso eu, pelo menos dois efeitos: (1) uma cola e identificação imaginária a algum quadro diagnóstico, muitas vezes utilizado como justificativa de si como uma espécie de horóscopo (sou assim por que sou x coisa) e (2) abafando ou fechando a questão do sujeito aberta pelo sintoma/sofrimento, privando-o de se colocar questões a respeito do mesmo e sua repetição. Pode haver uma produção de alienação aos signos do discurso médico-psiquiatrico-farmacológico-mercadológico, muitas vezes acompanhado das demandas de felicidade, completude e "saúde" do discurso neoliberal, onde o sofrimento humano precisa não existir ou ser eliminado para que a máquina do capital continue rodando.
Diante disso, o que a proliferação de diagnósticos pode nos indicar, sendo impulsionada pelos meios digitais? Pode essa divulgação também servir como meio de alavancamento de venda de medicações e o perigoso autodiagnóstico, onde a medicalização da vida se amplia? (RESENDE,PONTES,CALANZANS, 2015) 5 Será que o DSM na sua versão de número 5 é tão isento e a-teórico como se proclama? Há indicações de conflitos de interesse em jogo, onde alguns revisores que participaram da elaboração do manual receberam verbas advindas da indústria farmacêutica (DAVIS, DIIANI, DRUMHELLER, ELANSARY, D'AMBROZIO, HERRAWI ET AL, 2024). Como é feito a seleção das referências pelas Inteligencias Artificiais hoje e quais os impactos disso no campo do conhecimento, já que são de propriedade privada e seu código geralmente é fechado?
As telas que temos em nossas mãos são poderosas ferramentas de facilitação de nossas vidas cotidianas e inegavelmente trouxeram conforto e praticidade. Porém ainda estamos tateando sobre os efeitos disso em nossas vidas, seja no âmbito político, econômico, social, ambiental e tantos outros ainda não vistos. Na questão abordada nesse artigo, acredito que é importante não discutir isso como algo isolado ou que seja apenas da área psi, pois há muitos interesses e complexidades em jogo. A via psicanalítica pretende fazer outros tencionamentos nessas discussões e numa via avessa ao empuxo capitalista do lucro e na produção de aplainamentos subjetivos. Isso se dá não como um discurso que promova simples respostas ou visões de mundo, mas sim de instigar o questionamento e assim poder criar possibilidades de ser e estar no mundo um pouco mais críticas, menos passivas às imposições de discursos totalizantes e de afirmações das diferenças constituintes de cada um.
REFERÊNCIAS
FARIA, Michele Roman. Neurose, psicose e perversão: Lacan e as estruturas clínicas. São Paulo: Toro Editora, 2025.
DAVIS L C, DIIANI A T, DRUMHELLER S R, ELANSARY N N, D'AMBROZIO G N, HERRAWI F et al. Undisclosed financial conflicts of interest in DSM-5-TR: cross sectional analysis. BMJ, 2024
RESENDE, Marina Silveira de; PONTES, Samira; CALAZANS, Roberto. O DSM-5 e suas implicações no processo de medicalização da existência. Psicol. rev. (Belo Horizonte), Belo Horizonte , v. 21, n. 3, p. 534-546, set. 2015 . Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?
NOTAS
3 Crise de saúde mental: Brasil tem maior número de afastamentos por ansiedade e depressão em 10 anos
4 Aqui uma curiosidade histórica: até o DSM III haviam muitas categorias diagnósticas que eram atreladas à psicanálise, muito pelo fato de que a Associação Americana de Psiquiatria (APA), responsável pela elaboração do manual, contava com a participação de muitos psicanalistas americanos até certa época. A partir do DSM IV essas categorias foram removidas e marcou uma guinada da APA em direção a outros critérios, algo que nomeiam "baseados em evidências".

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