Homens em análise - a Normasculina e o cômico
- Artur Linck

- há 8 horas
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Em 2024 conheci o magnífico trabalho em formato de livro do psicanalista Vinícius Lima chamado "Homens em análise - travessias da virilidade", publicado pela editora Blucher no mesmo ano. Este contato se deu inicialmente em minha procura na literatura psicanalítica por obras que falassem da masculinidade de uma forma mais detida, por conta de questões que percebia na clínica. Ao embarcarmos juntos com Vinícius em sua desafiadora jornada, percebemos o grau de complexidade teórica e atualidade da discussão que ele se propõe discutir. Isso por que ele não se atém simplesmente à discussão das masculinidades, mas também dá consequências a como isso se articula com as mais amplas manifestações do humano falante que encontramos atualmente. Ou seja, o livro não se propõe, como o título pode nos sugerir ingenuamente, a discutir exclusivamente ao espectro do homem branco, cis-gênero, heterossexual, mas Vinícius expande a discussão, ao meu entender, para diversas questões. O autor traz elementos para pensarmos de forma consistente, rigorosa, não patologizante e sem moralismos (como ainda pode aparecer, por vezes, inclusive em fala de psicanalistas) as mais diversas manifestações da sexualidade humana e inclusive o que isso tem a ver com questões raciais. Articula e conversa não somente com os autores fundamentais da psicanálise como Freud e Lacan, mas os faz conversar com outros(as) grandes como Butler, Preciado, Fanon, Beauvoir e outros, fazendo com que o tema tenha a complexidade e capilaridade que lhe faz jus. Muito mais do que uma obra que venha para fechar a discussão ou pretender dizer a última palavra, Vinícius nos abre inúmeras portas de entrada no tema. Seu texto é daqueles que nos joga para fora do próprio texto, provocando uma busca não somente nos autores(as) que cita, mas para tantos outros(as) que já escreveram ou poderão escrever sobre o tema.

O título deste artigo, que atuou como disparador desta escrita, me caiu no colo num passar de olhos. Ele vem do prefácio do referido livro, escrito por Marcus André Vieira, onde ele aponta a "Normasculina" como um Neologismo de Lacan que alude, em francês, não só ao normal / "normale" como ao "normâle". Este neologismo junta norma com masculino, apontando para uma norma onde o masculino seria a regra. Esse neologismo não se encontra no conhecido livro de 789 Neologismos de Jacques Lacan, pois ele está numa resposta do psicanalista a uma intervenção de André Albert em uma Jornada da Escola Freudiana de Paris em 1975, divulgada no Bulletin Interieur de L'ecole Freudienne de Paris, número 24. Em minha pesquisa fiquei realmente em dúvidas quanto a intenção de Lacan e se realmente foi um neologismo (até pelo fato não termos um registro em áudio), mas talvez as suas implicações se tornaram interessantes para a reflexão sobre o tema.
Eis que chegamos ao ano 2026 e cada vez mais temos notícias de casos de feminicídios no Brasil, onde números alarmantes incrementam as estatísticas e provocam uma onda de indignação. Há também o surgimento recente na internet dos chamados "Red Pills", que nada mais são do que homens, misóginos e heteressexuais que divulgam discursos de ódio contra mulheres, colocando-se em uma posição vitimizada perante as mesmas, propondo uma espécie de tomada de consciência. O nome do movimento surge como uma referência ao filme "Matrix" de 1999, onde Neo precisa escolher entre duas pilulas: uma azul e outra vermelha, sendo a vermelha aquela que lhe dará acesso às entranhas da Matrix e assim ter acesso a verdade do mundo e a azul que o deixará mergulhado na simulação. Esse movimento de fundo conspiratório tem a mesma proposta: os homens fracassam nos seus encontros amorosos com as mulheres por culpa delas mesmas e precisam tomar a pílula vermelha para se livrarem da dominação feminina. Nem precisamos ir muito longe para perceber o tom vitimizado e até ridículo dessa "teoria" e como ela escancara, não a fragilidade, mas a negação da mesma em certos homens perante suas dificuldades e sentimentos de inadequação perante as mulheres.
Outra situação, também bem recente, é do aparecimento de perfis em redes sociais de mulheres (e alguns também de homens) que começaram a divulgar conversas e áudios recebidos por mulheres de homens e suas investidas nas mesmas redes ou em aplicativos de encontros. O tom de deboche e cômico é justificado, pois o que lemos e ouvimos são homens que se utilizam de uma aproximação visivelmente machista, onde mulheres deveriam estar quase agradecidas por terem o privilégio de terem saído com eles. Em outras manifestações, temos homens que ficam contrariados com a não resposta rápida das mulheres a suas investidas, ou que mandam fotos intimas de seus órgãos sexuais sem qualquer contexto e se sentem ofendidos por não receberem a resposta que esperavam. Outros ainda, em conversas e aproximações que ainda não tiveram a chance de serem presenciais, já pedem dinheiro emprestado ou ainda, de forma ainda mais deselegante, solicitam o reembolso de gastos do encontro que não se concretizou no sexo esperado. Estas ilustrações de interações divulgadas pode dizer muito a respeito da crescente frustração de mulheres heterossexuais com seus encontros com homens, chegando algumas ao ponto de simplesmente desistirem diante da postura de muitos deles. Até já se cunhou um termo para tal quadro chamado "Heteropessimismo" batizado pelo escritor queer Ana Seresin.
Além da questão da resistência de muitos homens estarem abertos a repensarem seu lugar no mundo, não podemos esquecer que há também mulheres que se aliam a uma visão machista e paternalista de cultura. Há críticas ferrenhas ao feminismo vindas justamente de mulheres, sendo algumas de viés religioso e outras de simplesmente compartilharem de uma certa visão estereotipada e supostamente naturalizada do que é ser mulher. As críticas ao feminismo muitas vezes se amparam numa visão equivocada do movimento, como se o mesmo fosse uma simples inversão do machismo. Muitas não percebem que o simṕles fato de poderem se manifestar atualmente ou até mesmo de simplesmente poderem trabalhar, votar, dirigir, se divorciar, abdicar de não serem mães e estudar se deu graças ao desdobramentos das primeiras mulheres que ousaram levantar a voz perante o pleno domínio masculino de poucos anos atrás. Em tempo: feminismo, em linhas gerais, diz respeito simplesmente a reivindicação de mulheres por igualdade de direitos e oportunidades nos mais variados espectros da sociedade perante os homens, ou seja, de serem levadas em conta como seres humanos de iguais condições e não inferiores pelo simples fato de serem mulheres. Não se trata de um pedido para serem ou se igualarem aos homens como querendo ser um, como geralmente se pensa. Além disso, para nós homens, essa é uma luta que também nos implica, já que a normasculinidade também nos afeta e diz respeito aos nossos sintomas. O clássico "homem não chora" ou "seja homem" são os exemplos mais corriqueiros.
Nesse contexto, cada vez mais surgem convocações indignadas de mulheres pela tomada de posição dos homens a respeito dos crescentes números grotescos de feminicídios. Se entende que não basta nós homens dizermos "eu não sou assim" ou "nem todos os homens matam ou agridem", mas que também possamos agir e questionar nossos conterrâneos de posição sexual nos micro encontros cotidianos: Na piadinha infame, nos assédios sexuais vistos como normais, na valorização como profissional e suas discrepâncias em retorno salarial, no trato como puro objeto sexual, na falas que justificam os abusos sofridos, etc. As manifestações de poder e de uma suposta superioridade masculina estão entranhadas no mais simples do cotidiano. Quem aqui nunca assistiu novelas antigas da televisão e se deparou com falas misóginas e homofóbicas deve poder fazer essa experiência.
Essa é uma discussão muito ampla, que não abrange somente a vida privada de cada um, mas também diz respeito ao modo como muitas coisas se desenrolam em nossa sociedade mundo afora. Por exemplo: assistimos logo no início de 2026 a volta da ameaça de uma nova grande guerra mundial, onde o presidente de uma das maiores potencias econômicas e bélicas do mundo resolveu que interferir diretamente em um governo de um país latino-americano, com intenções muito explícitas: o controle da produção de petróleo. Demonstrações de força, de potências, de quem tem mais influência, poder, bens, riquezas, enfim, tudo isso faz parte do léxico do campo fálico e seus valores: quem tem e quem não tem. São certas insignias / marcas que dão ao seu portador a ilusão de ter algo a mais ou especial perante seus pares e assim exibir algo desse valor para que tenha um lugar de destaque. Essas marcas variam de tempos em tempos, de cultura para cultura e não são fixas ou naturais, como a normasculina por séculos pretende entender. Nessa via, um ser humano nascer com um corpo que possua um pênis e se portar como um já lhe daria o direito de posse de algo especial.
Já aqueles que não possuem algumas dessas características, atributos e valores reconhecidos socialmente como fálicos, são do time daqueles que não possuem e são vistos como menos. Isso pode ser visto claramente no juízo de valor sobre as mulheres (e por consequência outros extratos da sociedade, como negros, população LGBTQIA+, pobreza, povos originários, doentes mentais, etc) pois elas não possuem tais atributos e não tem a "potencia" necessária. Aqui a principal diferença sempre foi, não somente a posse ou não de um pênis, mas também saber portá-lo. Saber portar se refere a todos os atributos necessários para que o sujeito que supostamente o possui precisa fazer: comportamentos, falas, gostos, posição social, vestimentas, posição perante a falta/desejo, etc. Devemos lembrar aqui que o órgão masculino seria um dos representantes do falo, conceito psicanalítico que não se confunde com o órgão masculino, mas que também pode ser uma das suas figuras.

Sei que pode ser desafiador para quem não está habituado com leituras psicanalíticas, mas um recorte teórico se faz necessário e vou tentar escrever da forma menos hermética possível. Na teoria lacaniana o falo pode ser real, simbólico ou imaginário, sendo estas postuladas como as três dimensões do sujeito falante. A dimensão imaginária é a que estamos sublinhando aqui, pois o falo imaginário se coloca como sendo o representante da falta do Outro, algo que possa dar consistência imaginária ao objeto causa do desejo do Outro que por definição não tem imagem. Para a psicanálise o ser humano falante não teria os instintos como guia para sua busca objetal, tal como os animais que já nascem sabendo onde mamar, por exemplo. Sabemos o que aconteceria com um bebê que não é tomado pelos braços, direcionado ao seio, sendo olhado, falado e investido afetivamente, pois seus movimentos, visão e outros sentidos ainda estão muito precários, apesar de terem reflexos importantes. Desde que entra no mundo da linguagem os objetos humanos se multiplicam, complexificam e são substituíveis por outros, porém nunca iguais (nem mesmo entre si mesmos, pois "aquele sorvete daquela vez" nunca mais será o mesmo, mesmo sendo o "mesmo" e na mesma sorveteria que se está comendo agora). Quando o mundo humano se tece em palavras, se nomeiam coisas, pessoas, sentimentos, se perde algo de forma irremediável, pois nenhuma palavra pode dar conta desse algo. Nessa via aquilo que nos falta também é difícil de falar e nenhuma palavra sozinha pode se dar ao luxo de estancar essa brecha.
Mas onde entra o falo então? Justamente como sendo o candidato a heroicamente ser aquilo que falta ao Outro. O exemplo clássico e mais simples (e já um tanto em desuso e competindo com outras vias) é o caso de uma filha ou filho para uma mulher: é aquilo que faltava para completar sua vida e não deixá-la mais em falta. Depois a própria criança irá tentar decodificar esse desejo do Outro quando ela mesma se der conta, pelas ausências da mãe, que ela não é tão importante assim como achava até então e deve ter outras coisas ou alguém que ela deseja. Nessa eterna ciranda, ser quem "tem o falo" (pois ele circula e ninguém o tem como exclusivo) e poder estancar a ferida do desejo do Outro é ter um lugar de muito prestígio e poder, além de ser um belo engodo contra a angústia e por conseguinte a castração, termo psicanalítico para denominar a nossa falta em ser, essa condição de que não somos tudo para o Outro. Todos os seres humano falantes e ocidentais possuem em menor ou maior grau suas dificuldades em lidar com a castração, mas aqueles que conhecemos como "homens macho", tentam pela via da mostração fálica uma escamoteação de certa forma cômica. Quem aqui não lembra da ridícula fala de Bolsonaro: "imbrochável, imorrível e incomível", chegando a criar uma medalha para distribuir a apoiadores? Como nos lembra Vinícius em seu livro, essa fala é da ordem do ridículo:
Para se colocar na posição do "macho", um homem precisa dissimular sua própria castração, como as normas do discurso o convocam a fazer por meio da assunção dos semblantes da potência fálica. A posição do "macho depende, assim, do consentimento do sujeito em bancar uma impostura viril, fazendo um semblante do "ter" ali onde a castração, no entanto, não deixa de afetá-lo. "(p.100).
Ou seja, quanto mais o sujeito mostra ou ostenta certa posição viril positivada, quanto mais ele diz "olhem, eu tenho aquilo que falta ao Outro", mais ele demonstra sua imensa dificuldade em lidar com sua falta a ser.
Depois dessa bela volta teórica, podemos nos perguntar: mas e aí? Isso é tudo? É algo já dado? O que se faz com isso? Vemos que a normasculina está longe de ser algo do natural e já dado desde sempre. Sem dúvidas esta foi uma construção histórica que criou e fixou suas raízes no solo de nossa sociedade ocidental. Os movimentos sociais feministas do século XX foram muito importantes para que algo dessa dominância fosse borrada e questionada, assim como os movimentos LGBTQIAPN+ mais posteriormente. E esta elevação das vozes e cabeças de tantas e tantos que questionam a normasculina hoje, talvez possa indicar um dos motivos do crescente número de casos de feminicídio em nosso país, pois outros modos de viver e ser mulher, com menos dependências econômicas, afetivas e sociais são possíveis atualmente.
Já para nós homens o que vemos é uma espécie de crescente "crise de identidade", já que as cartas na mesa são bem mais complexas que de outrora. Se antes quase bastava nascer e agir como um macho, provendo economicamente um lar de família heterossexual, agindo como aquele que resolve tudo, que vai pra guerra, que não deixa a "peteca" cair, hoje em dia as coisas estão mais embaralhadas. Sim, vemos muito ainda a sustentação dessa postura caricata, inclusive entre os mais jovens e também entre mulheres. Sim, também vemos esse entendimento de mundo entre alguns casais homossexuais, onde as caricaturas se reproduzem em vestimentas e modos de ser e lidar com a falta / castração. Vemos na clínica, na escuta das mais diversas formas de ser e estar no mundo que essa questão não é nada simples e o didatismo que pretendemos por vezes passar sobre o tema é por vezes reducionista. Como sustenta Vinícius em seu livro e aqui corroboro: os modos como lidamos com tudo isso fica mais para o cômico.
Talvez se pudéssemos reconhecer e entrar em contato com essa dimensão cômica e sermos habilitados a rir de nossa própria falta em ser, do ridículo que nos tornamos a pretendermos obturar a nossa falta e a do outro, quiçá as coisas poderiam ser mais leves. E aqui isso vale para as mais variadas formas de posições sexuadas. A via proposta é a da afirmação das fragilidades e falta a ser, e não o contrário. Sim, esta condição diz respeito de uma certa forma do sujeito em habitar a linguagem e sua própria falta. A norma fálica está aí, mas não é a única saída para a complexidade do desejo humano. Claro que na perspectiva psicanalítica isso tem implicações, bem menos seguras e confortáveis.
Dito isso, não sei se podemos tranquilamente abdicar dela, como se pairássemos pelo mundo ilesos de sua força e presença. Mesmo negando-a ou tentando fazendo o que acreditamos ser o seu oposto, estamos ainda a referendar seu lugar no mundo. Mas o que uma análise pode produzir é criar as condições para travessias, relativizações, reconhecimentos, outras perspectivas, ponderamentos, outros modos de ser e estar no mundo, outras posições perante a falta e por conseguinte o desejo. Como homem heterossexual, também preciso reconhecer que a normasculina me atravessa e por vezes me propôs, propõem e proporá ou irá impor condições, não há como simplesmente se desfazer dela, já que me constitui. Mas o que uma análise pode produzir é podermos rir de nossas saídas perante nossa própria falta e podermos habitar o mundo de outras maneiras, ficando um pouco mais avisados das implicações cruéis que o machismo nos impõe como homens e por conseguinte, os reflexos disso em quem supostamente não faz parte desse universal.
Como nos diz Vinícius:
"Nessa perspectiva, consentir com a castração significa fazer o luto dessa aspiração à exceção: tanto em termos de ocupar a posição narcísica da exceção viril, de ser o "maioral" diante dos demais homens (que seriam, eles sim, castrados), como em termos da aspiração a um gozo em exceção à castração..." (LIMA, p.316, 2024)
Ou ainda:
"...esboçamos aqui um mais-além da virilidade nos homens que não se confunde com uma trajetória linear que levaria de um ponto fixo A a um ponto fixo B (numa passagem do gozo fálico ao gozo feminino, por exemplo). Não se trata nem de abandonar o gozo fálico e a fantasia, tampouco de tomar o feminino como uma nova determinação identitária." (LIMA, P.317, 2024)


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